Mestre dos monstros
Hoje aposentado, o criador de algumas das criaturas mais conhecidas – e assustadoras – do cinema e do videoclipe, craque da maquiagem especial, é homenageado em festival suíço de cinema
O Festival de Locarno, na Suíça, homenageou nesta quarta-feira, em sua 79ª edição, um criador de monstros e seres extraordinários: o americano Rick Baker, mestre da maquiagem de efeitos especiais que deu ao mundo um exército de Gremlins e a forma felina/lupina de Michael Jackson no clipe de “Thriller”, transformou Jim Carrey no Grinch e ajudou Eddie Murphy a encarnar inúmeros personagens num mesmo filme – inclusive um velhote judeu.
Ganhador de sete prêmios Oscar em sua categoria – um recorde para seu ofício e um triunfo em muitos aspectos, pois ele mesmo inaugurou, em 1982, a premiação por maquiagem pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ganhando o troféu por seu trabalho em Um Lobisomem Americano em Londres–, aos 75 anos Rick acumulou prestígio e criações singulares que ajudaram a dar continuidade a uma linhagem de trabalhos para a telona (e também para a telinha) que começa lá atrás, com os antológicos Nosferatu e Frankenstein.
Em filmes feitos com um elenco de diretores craques – de George Lucas e David Cronenberg a Tim Burton e Peter Jackson – Baker operou nos atores com quem trabalhou metamorfoses tão perfeitas que o público acreditava piamente estar diante de um ser de verdade, fosse um lobisomem ou um visitante de outro planeta.
“Rick Baker foi responsável por uma revolução copernicana no cinema: visionário e revolucionário, ele abriu novos caminhos para a imaginação de gerações inteiras, mostrando o que realmente significa testemunhar a transmutação física na tela”, destacou o diretor artístico de Locarno, Giona A. Nazzaro.
“Fiz parte da primeira geração de crianças a crescer em frente à televisão”, contou Rick à revista The Hollywood Reporter, antes de partir para Locarno. “Adorava aqueles filmes de monstros e adorava as maquiagens. Em Frankenstein, Boris Karloff me impressionou demais. Antes de perceber que maquiador era o que eu queria ser, eu pensava que queria ser médico porque queria ser o Dr. Frankenstein. Queria ser médico, ter um laboratório no porão e criar monstros. Mas aí cresci um pouco e descobri que sou extremamente sensível – não gosto de ver sangue de verdade”.
Esta paixão o levou, já na adolescência, a criar na cozinha de casa partes do corpo humano e monstros e a montar um verdadeiro laboratório de maquiagem especial em seu quarto. Jovem, em 1973, conseguiu trabalhar com um de seus ídolos, Dick Smith, em O Exorcista. Smith havia transformado Dustin Hoffman num veterano de guerra de 121 anos no filme Pequeno Grande Homem, usando para isso próteses de látex separadas para o queixo, as maçãs do rosto, as sobrancelhas e a papada, de forma que cada peça tinha movimento próprio, individual, ligado aos movimentos do próprio rosto do ator, o que dava naturalidade à caracterização do personagem.
Em pouco tempo Rick evoluiu na profissão – construiu um bebê mutante e assassino para Nasce Um Monstro, ingressou no universo James Bond ao integrar a equipe de Com 007 Viva ou Deixe Morrer e criou o gorila King Kong para a versão de 1976 – chegando, inclusive, a interpretá-lo, vestindo a fantasia que criou, quando utilizar a versão mecânico do bicho, também feita por Baker, não era possível.
O sucesso internacional chegou quando criou as transformações fantásticas por que passa o protagonista de Um Lobisomem Americano em Londres, trabalho feito através de próteses e manipulação de bonecos que o aproximou do diretor John Landis, mais tarde o realizador do clipe revolucionário feito para “Thriller”.
“Não foi tão difícil quanto muitas outras coisas que já fiz”, Baker explicou ao THR. “Foi meio que uma decisão óbvia. Eu já tinha feito filmes de zumbis antes. Michael (Jackson) tinha visto Um Lobisomem Americano em Londres e por isso contratou John como diretor. Ele queria se transformar em um lobisomem. Pessoalmente, eu não achava que ele deveria ser um lobisomem. Ele era muito mais felino. Então, sugeri que o transformássemos em um homem-gato. Eu simplesmente achei que a estrutura felina combinava muito melhor com ele”.
Mas faltava tempo e dinheiro para Rick executar o trabalho como desejava, e ele partiu para a criatividade. Em vez de moldar próteses individuais para todo o elenco de dançarinos e atores que participaria do clipe, todos escalados de última hora, optou por construir peças genéricas e usar dentaduras tortas, feias, bizarras. Embora alguns dos zumbis do clipe tivessem recebido atenção especial, por serem destaques: dentre eles, membros da equipe de Baker e ele mesmo, que faz o papel do zumbi barbudo que se ergue da tumba.
A partir dali, Rick nunca mais parou de trabalhar, criando primatas (para Planeta dos Macacos, de 2001), alienígenas (todos da série MIB-Homens de Preto) e tantos tipos vividos por Eddie Murphy ao longo dos anos.
Aposentado – seu último filme foi Malévola, de 2014 – , Rick se sente parte de uma outra geração e de uma outra forma de trabalhar. Viu seu ofício ser substituído, em boa parte, por animação feita com computadores, e os orçamentos e prazos se esfarelarem. “Gosto de fazer as coisas direito, e (os produtores e estúdios hoje) querem (tudo) barato e rápido”, explicou. “Não é isso que eu quero fazer, então decidi que basicamente é hora de sair”.
O que não significa que parou de se divertir ou que se afastou por completo do audiovisual. Ele aparece num clipe recente do Anthrax, no papel de um mágico sinistro (a esposa dele representa sua assistente), dirigido por um colega de profissão, Joel Harlow. Baker se esbaldou. “Gosto de me fantasiar e de me transformar em outra pessoa”, confessou.

Quase um dia inteiro assistindo a óperas de Wagner. Ônibus da contracultura é resgatado. Homenagem em Los Angeles à música de Yoko Ono. Elenco de Twin Peaks se reúne em torno de aniversário de David Lynch. Coletivo pernambucano celebra os cinemas de rua. E Ritchie Blackmore volta a tocar com o Deep Purple … 33 anos depois

– Como deve ser passar quase 24 horas assistindo a óperas de Richard Wagner num teatro de assentos duríssimos, sem ar condicionado – e em meio a uma onda de calor? Flora Wilson – crítica de música clássica do diário britânico The Guardian – topou o desafio de enfrentar o desconforto do teatro do Festival Bayreuth, concebido 150 atrás pelo próprio compositor, no decorrer de 23 horas de espetáculo, espalhadas ao longo de uma semana. Embora criado com acústica perfeita, o teatro oferece assentos conhecidamente desconfortáveis. Mesmo assim, os ingressos para o festival – que vai até 26 de agosto – esgotam em questão de minutos.
– Na semana passada, falamos da eternização da música e do legado do Grateful Dead. Pois é um assunto que parece não ter fim. Vejamos: agora, outro ícone da cultura hippie voltará à tona – Furthur, o ônibus que o escritor Ken Kesey pintou com temas psicodélicos para percorrer os Estados Unidos em meados de 1960, junto a músicos, pensadores e piradões em geral, na missão de abrir e fazer a cabeça do país para os benefícios do uso do LSD. A partir de 5 de setembro o ônibus ficará exposto em São Francisco, como parte do evento Forever Grateful, Golden Gate Park, evento organizado para resgatar artefatos e objetos de arte representativos da história da contracultura na cidade.
– Yoko Ono foi homenageada, no sábado passado (8/8), com uma noite dedicada a sua música em show no museu The Broad, em Los Angeles, onde também está montada a mostra Music of the Mind, uma retrospectiva de carreira. Com acompanhamento de uma banda-núcleo formada por integrantes do Yo La Tengo, mais Nils Cline (guitarrista do Wilco) e Yuka Honda ( tecladista do Cibo Matto), o evento teve participações que variaram de Satomi Matsuzaki, vocalista do Deerhoof, Corin Tucker, do Sleater-Kinney, o jazzista Theo Bleckmann, Rufus Wainwright e Emi Helfrich, artista multimedia nova-iorquina e neta de Yoko (é filha de Kyoko Ono Cox)., hoje com 93 anos . “Yoko Ono estava muito à frente do seu tempo e foi extremamente influente para a minha geração, a geração riot grrrl”, disse Tucker. “Ela foi uma influência direta para nós, alguém que não tinha filtro. Música é sobre se expressar, sobre ser quem você realmente é e compartilhar essas ideias com o mundo. Isso teve um impacto enorme em nós”.
– Enquanto isso, e também em L.A., o aniversário de David Lynch – em 20 de janeiro – servirá de pretexto para uma reunião de parte do elenco da série Twin Peaks, incluindo Sheryl Lee (que fez o papel de Laura Palmer), Ray Wise (Leland, pai de Laura) e Michael Horse (o guarda Hawk), mais Sabrina S. Sutherland, produtora executiva da terceira temporada da série, exibida em 2017. Os fãs que comparecerem ao evento, agendado para acontecer no United Theater, poderão conversar com o elenco. Lynch morreu, aos 78 anos, em janeiro de 2024.
– O Coletivo CineRuaPE organiza exibições gratuitas de filmes em frente a cinemas de rua de Pernambuco que já foram fechados. Neste sábado (15/08), fará uma sessão do projeto Cineclube CineRua em frente ao Cine Olinda, sala inaugurada em 1911 como teatro, transformada em cinema pouco mais de uma década depois, e fechada há mais de 40 anos. A iniciativa atinge uma série de outras salas, também, dentre elas o Cine Polytheama, em Goiana, e o Cine AIP, no Recife, com a proposta de estimular o debate sobre a preservação e a reativação desses equipamentos culturais.
– O guitarrista Ritchie Blackmore fez seu primeiro show com o Deep Purple 33 anos depois de seu afastamento da banda. Na quarta-feira passada, ele subiu ao palco do Jones Beach Theater, nos arredores de Nova York, e tocou o clássico "Smoke On The Water” com os ex-colegas do grupo que ajudou a fundar. Ele chegou preparado, avisando que tinha trocado as cordas da guitarra pela primeira vez em 25 anos. Assista abaixo ao reencontro histórico.
PLAYLIST FAROL 168
Neil Young canta por tempos melhores. O country rock de Margo Cilker. Nina Winder-Lind, herdeira de Patti Smith. A new wave de Yoko Ono. O minimalismo de Lucina. Steve Earle + Los Lobos. O art-rock punk de Man/Woman/Chainsaw. Bill Bruford de volta à música. O psicodelismo e o samba-rock de Tangolo Mangos. E o indie rock bluesado de Rowena Wise
Neil Young – “Second Song”– Faixa-título do novo álbum de Neil com a banda Chrome Hearts: 11 minutos de country rock, aparentados com “Harvest Moon”, clamando por tempos melhores, mais amenos, enquanto Young dialoga na gaita com os teclados sublimes de Spooner Oldham (inclusive, um Mellotron).
Margo Cilker – “Little White Cross”– Em seu quarto álbum a cantora-compositora californiana traz country rock no feminino, lidando com temas sérios, sombrios – como a morte que espreita na curva de uma estrada.
Nina Winder-Lind – “Headfirst”– A artista sueca – mas baseada na Inglaterra – não esconde a herança de Patti Smith em seu primeiro álbum solo fora do grupo The New Eves, o recém-lançado Wild Love.
Yoko Ono – “Never Say Goodbye”– Nesta faixa recém-editada de seu sexto álbum, It’s Alright (I See Rainbows), de 1983, Yoko tece uma balada new wave movida a sintetizadores – tingida pelo impacto ainda muito recente da morte de John Lennon.
Lucina – “É Onde”– A cantora-compositora mato-grossense – que durante duas décadas e meia formou a dupla Lula & Lucina – gravou um álbum minimalista em parceria com o poeta paulistano André Arruda, Bicho Pedra Gente, que acaba de sair.
Steve Earle – “Volver a Celaya”– A primeira colaboração no estúdio entre o veterano cantor-compositor de alt-country e Los Lobos – decanos do rock chicano de Los Angeles – é um bolero movido a acordeão que fala da jornada de um imigrante mexicano que vira cidadão americano e, décadas depois, volta a seu país de origem, desiludido com aquilo em que seu lar adotivo se transformou.
Man/Woman/Chainsaw – “Get Up and Dance”– Queridinho do momento, o sexteto londrino estreia com um álbum variado e arrojado, Cannonball, que vai do art-rock ao pop punk – incluindo até violinos na mistura.
The Pete Roth Trio – “Full Circle”– Depois de quase duas décadas sem participar de um disco, e após 13 anos dedicado a atividades acadêmicas, o baterista Bill Bruford – que você já ouviu quando ele tocou no Yes, no King Crimson e em seus projetos próprios, como a banda Earthworks – voltou à música como integrante do trio do guitarrista Pete Roth, junto com o baixista Mike Pratt. É jazz-rock progressivo, tocado por Bruford com aquela elegância e aquela limpeza que só ele tem.
Tangolo Mangos – “DOMINÓ”– Em seu segundo álbum, Pedágios y caronas, o inventivo quinteto de Salvador – mas baseado em São Paulo – joga em seu caldeirão psicodelismo e samba-rock.
Rowena Wise – “Blood Ties”– Novo single da artista australiana, indie rock impregnado de blues, faixa do novo álbum Bad Things Feel Good.


