Em alto e bom som
Relatório do Spotify mostra a multiplicação das línguas usadas no pop e no rock, o que reflete a proliferação de uma música cada vez mais sem fronteiras
A língua inglesa está perdendo espaço num mundo pop e rock cada vez mais internacional e globalizado. Agora, muitos dos grandes sucessos nas plataformas de streaming são cantados em espanhol, coreano, turco e mesmo em português.
Esta é a conclusão do Loud & Clear, recém-divulgado relatório anual do Spotify que apresenta os resultados mais recentes, quantitativos e qualitativos, do mercado mundial de streaming de música, segundo a ótica da empresa sueca, que comemora 20 anos em atividade.
De acordo com a plataforma, figuram entre as 50 gravações mais ouvidas em 2025 músicas cantadas em 16 línguas – o que seria o dobro do registrado em 2020.
E não pense que o aumento na variedade linguística se deva apenas ao megassucesso de artistas que cantam em espanhol – como o porto-riquenho Bad Bunny, o mais ouvido no streaming do mundo inteiro, ou a catalã Rosalia, que canta em espanhol e em mais de uma dúzia de dialetos em seu novo álbum, Lux.
O português é a língua que mais ganhou proeminência no levantamento do Spotify – e graças ao funk. Sua presença cresceu 36%, contra os 31% do K-pop, os 29% do Trap Latino e os 24% do reggaeton. O gênero brasileiro seria responsável por movimentar 100 milhões de dólares, em termos do mercado de streaming.
A mudança na maré pode ser explicada pelas facilidades oferecidas pela abrangência de alcance das plataformas de streaming e pelo crescente aumento do interesse do público mais jovem por novidades fora de sua zona de conforto.
Segundo o Spotify, na semana passada, por exemplo, sua lista de músicas mais tocadas incluía Nadhif Basalamah (da Indonésia), Peso Pluma (do México) e Ryan Castro (da Colômbia).
“A conclusão é que a música torna-se cada vez mais sem fronteiras”, disse ao The Hollywood Reporter Joe Hadley, chefe global de parcerias e público do Spotify. “A música está mais global do que nunca. Tivemos Bad Bunny. O K-Pop não é mais um nicho. O Afrobeat é música global, a Mexicana está explodindo. O funk brasileiro é um dos gêneros que mais crescem no Spotify. Vinte anos atrás, isso seria realmente difícil de imaginar”.
O novo relatório Loud & Clear chega num momento delicado para o Spotify, quando a plataforma é alvo de críticas quanto à transparência em suas contas e os valores baixos recebidos por boa parte dos artistas.
São 751 milhões de pessoas usando o serviço mundo afora, dos quais 290 milhões de assinantes em 184 mercados fonográficos diferentes. No entanto, é preciso que se tenha um mínimo de execução – de mil plays – para que o artista receba alguma coisa. Ainda por cima, esse dinheiro é diluído ao passar por um punhado de intermediários – a gravadora, a editora, distribuidores, empresários e compositores – antes de chegar ao intérprete ouvido pelo público.
Os números positivos do relatório Loud & Clear não deixam de ser parte de uma ação de relações públicas para melhorar a imagem de uma marca tida, em boa parte, como vilã pelos artistas, na comparação com concorrentes como Apple Music, Amazon e outros. Com ele, o Spotify tenta sublinhar seus predicados e os benefícios que vem trazendo para o mercado.
Enquanto isso, a Geração Z (pelo menos nos Estados Unidos) vem demonstrando uma crescente “fadiga” em relação aos serviços de assinatura de streaming – de vídeo e de música. Ao todo, 87% desta faixa etária – os nascidos entre 1997 e 2012 – declararam algum grau de cansaço com esse sistema, de acordo com dados da Civic Science, plataforma que analisa hábitos de consumo, citada pela revista Fortune. Entre dezembro e janeiro passados, 37% dos jovens Gen Z cancelaram assinaturas de um ou dois serviços, enquanto 29% disseram estar pensando no assunto. O que preferem, no lugar da música consumida via streaming? CD’s, DVD’s e vinil. E em vez de assistir filmes e séries na TV? Vão ao cinema – e hoje são responsáveis pelas bilheterias de muitos dos sucessos atuais da telona.
São suportes que não chegam ao consumidor via algoritmos, mas por recomendações humanas, pelo boca-a-boca, pela descoberta ao vivo.
Os serviços de streaming não sumirão de uma hora para a outra, claro, são práticos e cômodos, mas o apreço pelo suporte físico e o interesse renovado pela posse, em vez do acesso, vem crescendo, sublinhando o dinamismo do mercado – e dos gostos –, enquanto o mundo segue em frente.
Percussionista extraordinaire Paulinho da Costa ganha documentário. A nova sede do Museu da Casa Brasileira. Que futuro tem o baile funk? Willie Nelson colhe os lucros de sua bebida à base de THC. Atores profissionais ganham a vida fingindo ser pacientes em hospitais. E "Dona Sebastiana” turbina as candidaturas de Wagner Moura e O Agente Secreto às vésperas do Oscar
– Chama-se The Groove Under The Groove o recém-lançado documentário que conta a trajetória do percussionista Paulinho da Costa, carioca do Irajá que trabalhou com meio mundo do pop e do jazz mundial – leia-se Michael Jackson, Madonna, Lionel Ritchie, The Carpenters, George Benson e Earth Wind & Fire – desde que mudou-se para Los Angeles, em 1972. Ao todo, Paulinho acumula participações em gravações de 6.716 músicas, feitas por 972 artistas, 161 das quais receberam indicação para o Grammy, sendo que 59 destas paparam o troféu. Dirigido por Oscar Rodrigues Alves – o mesmo de ‘A vida até parece uma festa’, documentário sobre os Titãs – , o longa traz depoimentos de artistas como Quincy Jones, Zeca Pagodinho, Roberto Carlos, Ivete Sangalo e o compositor, maestro, arranjador e pianista Lalo Schifrin, pai do tema de Missão Impossível.
– Abre em maio, com uma mostra inaugural, a nova sede do Museu da Casa Brasileira, a única instituição em todo o país focada na arquitetura e no design. Após três anos desalojada, ela foi instalada num casarão em São José dos Campos, no interior de São Paulo, desenhado por Rino Levi e com jardins de Burle Marx. A Casa Modernista, na capital do estado, chegou a ser cogitada como possível lar do museu, mas a secretaria paulista de Cultura, gestora daquele espaço, reconheceu que o local não tinha condições de abrigar todo o acervo.
– Que futuro tem o baile funk? A revista britânica Dazed, dedicada a cultura jovem, música e moda, consultou sete representantes do funk – dentre artistas, pesquisadores e empreendedores – do Rio e de São Paulo para buscar a resposta. “O fato de o governo tratar os artistas como criminosos não torna o funk um crime”, diz na matéria um dos entrevistados, Rafael Santos, CEO da gravadora, editora e gestora de carreiras Fluxos Records. “Esses artistas são contadores de histórias e o funk é sua expressão criativa, fonte de renda, forma de autocuidado e ato de resistência. Criminalizá-lo marginaliza ainda mais os jovens. Estamos lutando por respeito, espaço, reconhecimento e pelo direito à cultura”.
– Do alto dos seus bem vividos 92 anos, Willie Nelson, o venerado ícone do country, com mais de 150 álbuns em seu currículo, vem encontrando atividades extra-musicais divertidas e lucrativas. A mais recente é a Willie’s Remedy, bebida não alcoólica feita à base de derivados de THC, o principal composto psicoativo da cannabis. Desde o lançamento da bebida, em março de 2025, Willie – que há anos não consome mais álcool nem fuma cigarros – alcançou vendas de 80 milhões de dólares.
– Não está fácil para ninguém, menos ainda para os atores em busca de trabalho numa Hollywood de poucas oportunidades para tantos candidatos. Assim, é preciso usar a inventividade para sobreviver. Por isso, muitos atores profissionais estão ganhando a vida representando pacientes-padrão em hospitais e faculdades de Medicina, para testar alunos e iniciantes na profissão, simulando situações de pressão como as que enfrentarão na vida real. Eles são contratados para chegar anonimamente, como se fossem pacientes de verdade, o que ajuda o ator a aprimorar sua capacidade de improvisação. O cachê varia entre 25 e 30 dólares, a hora.
– Domingo é dia de Oscar e, na torcida e com muito bom humor, a atriz Tânia Maria, a Dona Sebastiana de O Agente Secreto, protagonizou nas redes um vídeo cheio de mandinga e forró para caitituar o longa de Kleber Mendonça Filho, reproduzindo cenas de filmes indicados e contracenando com Michael B. Jordan, do elenco de Pecadores e um dos concorrentes, com Wagner Moura, ao troféu de Melhor Ator.
PLAYLIST FAROL 151
A nova de Michael Stipe. Spok + Lenine. Os fraseados insistentes de Aldous Harding. O indie rock de The Wave Pictures. A música híbrida de pôt-pot. O punk psicodélico de Wax Head. A neo-psicodelia de Memorials. O folk-jazz experimental de Hen Ogledd. Pupillo, fervendo. E The Who sinfônico, ao ar livre.
Michael Stipe – “I Played the Fool”– Nova faixa do ex-R.E.M., produzida (e co-escrita) por Andrew Watt (o mesmo que trabalhou recentemente com The Rolling Stones, Pearl Jam, Elton John e Paul McCartney), feita para ser o tema da nova série Rooster, em cartaz na HBO Max.
Spok – “Kaô”– O pau come solto nesta faixa do novo álbum do artista pernambucano, Raízes, com participação estelar do conterrâneo Lenine numa música que saúda Xangô, orixá da Justiça, com batuque afro-brasileiro e guitarras furiosas.
Aldous Harding– “One Stop” – Fraseados insistentes no piano dão o mote na nova canção da artista neozelandesa, parte de seu quinto álbum, Train On The Island, agendado para sair em maio.
The Wave Pictures – “Samuel”– O trio britânico celebra mais de duas décadas de atividade convocando a cantora londrina Holly Holden para compartilhar algumas das faixas de seu Gained/Lost, gravado ao vivo no estúdio no decorrer de uma semana.
Wax Head – “Bug Doctor”– Guitarra e sintetizador zumbem como os insetos cuidados pelo veterinário que dá título ao estonteante single de punk psicodélico do álbum de estreia do quarteto de Manchester, GNAT.
pôt-pot – “WRSW”– E tome mais psicodelismo, dessa vez cortesia do quinteto que estende suas asas entre Portugal e Irlanda, numa das faixas de seu primeiro álbum, Warsaw 480 km, onde são capazes de soar como um híbrido de Lou Reed, The Stooges e krautrock.
Memorials – “Dropped Down The Well”– Órgão Farfisa turbinado, batida iê-iê-iê e baixão seventies fazem parte da receita neo-psicodélica da dupla inglesa formada por Verity Susman e Matthew Simms em seu segundo álbum, o recém-lançado All Clouds Bring Not Rain.
Hen Ogledd – “Clara”– Embarque numa jornada enérgica, promovida pelo folk-jazz experimental deste coletivo britânico na faixa de seu novo álbum, o recém-lançado DISCOMBOBULATED. Com direito a vocais que lembram Bowie – e metais em brasa.
Pupillo – “Fervendo o Chão com Amaro!”– Quando o título da música inclui o nome do artista convidado é sinal de que só existe graças a ele. E é assim nesta faixa do primeiro álbum individual de Romário Menezes de Oliveira Jr. – baterista, compositor e produtor pernambucano (mais um na playlist da semana), egresso do Nação Zumbi – assinando como Pupillo, na qual brilha no piano Amaro de Freitas, também do Recife.
The Who – “Pinball Wizard”– E fechamos com um gostinho do álbum que o The Who gravou em 2023, ao vivo e ao ar livre (no Eden Project, região de proteção ambiental de diferentes biomas na região de Cornualha, na Inglaterra), acompanhado da Heart of England Philharmonic. O disco sai em maio.



