Desaprendendo a ler
Cada vez menos pessoas conseguem entender o que estão lendo. Porque estão lendo cada vez menos. Como chegamos aqui?

“Chegou o fim da era da leitura”.
O título apocalíptico da longa matéria escrita por Rose Horowitch para a revista americana The Atlantic precede um texto denso e bem fundamentado que aponta para uma queda crescente e vertiginosa do hábito de leitura nos Estados Unidos, consequência de fatores que vão desde a redução da capacidade de atenção do público leitor e a preferência por vídeos curtos nas redes sociais e mensagens de voz no celular à ascensão do uso de Inteligência Artificial e – por essa não se esperava – das plataformas de bets.
Entrevistada pela CBS News, Rose explicou que sua apuração detectou uma “queda acentuada geral nos hábitos de leitura (dos americanos) em todas as faixas etárias, independentemente do gênero ou do poder sócio-econômico”. Segundo ela, o número de pessoas que leem um livro ou mesmo um artigo de jornal todos os dias no país caiu 40% no decorrer dos últimos 20 anos.
Um sintoma preocupante da situação atual para Horowitch é que usar plataformas de bets tornou-se uma atividade “de lazer” que suplantou a leitura nos Estados Unidos. As pessoas preferem apostar a ler um livro, uma revista ou mesmo um jornal.
Embora se leia relativamente mais palavras hoje em dia – através da troca de mensagens de texto, ou por emails e postagens online que transbordam de nossos dispositivos móveis – , Rose considera que isso na verdade prejudica a capacidade de se ler com atenção e foco textos mais longos e complexos, que requerem raciocínio, vocabulário e capacidade de análise.
Ela usa como exemplo do declínio da capacidade de leitura do americano o caso de um aluno de Harvard – uma das melhores universidades no país – que teve dificuldade de entender o conteúdo de A Laranja Mecânica por considerar o texto “escrito em inglês antigo”. O livro, um clássico da literatura que fala de uma sociedade ultra violenta no futuro, foi lançado por Anthony Burgess em 1962. Talvez os leitores de qualquer época se surpreendam – ou precisem parar para pensar – diante das gírias criadas pelo autor para especificar a fala de seus jovens personagens. Mas quem abrir o livro hoje não se sentirá diante de uma forma de se expressar tão distante quanto a de Shakespeare. Seja como for, o aluno em questão recorreu ao ChatGPT para “traduzir” o livro para ele.
“Um professor comentou que muitos alunos reclamam do que consideram ‘quantidades desnecessárias’ de leitura, quando em vez de ler os livros exigidos tudo aquilo poderia ser resumido pela IA”, explicou Rose na entrevista. O que significa que os professores precisam convencer seus alunos – numa escola de nível superior – da importância de se ler livros inteiros, de se conhecer por completo as palavras escolhidas e usadas pelo autor, de mergulhar nelas.
Rose observou, ainda, que a decadência do hábito da leitura tem origens no berço. Ela descobriu que apenas 2% da população americana adulta lê livros para seus filhos antes deles dormirem. Isso faz com que crianças e jovens se interessem cada vez menos por livros. E afeta também o desenvolvimento de suas habilidades analíticas.
Além disso, como a autora adverte em sua matéria na The Atlantic, os best-sellers costumam ser livros mais curtos e com frases mais compactas e diretas.
A situação não se restringe aos Estados Unidos. O hábito da leitura também está em declínio no Brasil. A sexta edição da pesquisa “Retratos da Leitura” – feita pelo Instituto Pró-Livro junto com o Ministério da Cultura e divulgada em outubro do ano passado – mostra que 47% de brasileiros haviam lido ao menos um livro nos três meses anteriores a sua consulta, oito pontos percentuais a menos do que havia sido registrado em 2007. Pior, o levantamento detectou o crescimento do que chamou de analfabetismo funcional: o grupo de pessoas capazes de reconhecer letras e números, mas que não conseguem interpretar textos simples.
“Pode parecer interesseiro para uma escritora de uma revista com 169 anos defender a leitura”, argumenta Rose em sua matéria. “Mas as pessoas que ganham a vida com as palavras não são as únicas que perdem em uma era pós-alfabetização. Ler é mais do que uma habilidade ou um modo de comunicação entre muitos. Os meios de comunicação que usamos para interagir uns com os outros moldam o mundo em que vivemos. Os primeiros humanos passaram milênios se comunicando apenas pela voz. O advento da leitura e da escrita transformou a sociedade. Alterou a consciência e a política das pessoas, juntamente com as façanhas intelectuais de que eram capazes”.
“O declínio da leitura trará mudanças da mesma magnitude”, ela pondera. “Afetará nossos pensamentos mais íntimos, a política e a cultura de nossa sociedade e a forma como contamos a história de nossa civilização. Se observarmos atentamente, veremos que essas mudanças já começaram.”
Duas vezes Marilyn Monroe. O centenário de Moacir Santos. A cerâmica erótica do "Banksy da Catalunha". Disco inédito de George Michael causa briga jurídica. Um novo Inhotim? E Michael Stipe revela mais um pouco de seu primeiro disco solo
– E se Marilyn Monroe tivesse vivido até os 90 anos? Essa é uma pergunta que faz Maggie Gyllenhaal no curta-metragem Flesh Impact. Nos 17 minutos do filme que a realizadora do recente A Noiva! escreveu e dirigiu, vemos duas versões da estrela de Quanto Mais Quente Melhor e Os Homens Preferem As Louras: uma, jovem (vivida por Dakota Johnson), e, outra, bem mais velha (vivida por Ellen Burstyn). A Marilyn senior aparece fazendo um teste para um novo papel. Quem assistiu à filmagem desta única cena de Ellen diz que foi de tirar o fôlego. O filme estreará na próxima edição do Festival de Veneza, em setembro, rompendo um bloqueio histórico a curtas com uma celebração da artista, que completaria 100 anos em 2026.
– Também este ano se celebra o centenário de Moacir Santos , compositor, arranjador, instrumentista e maestro pernambucano, professor de música de Nara Leão e Baden Powell, que nos anos 1960 mudou-se para os Estados Unidos, onde começou a compor trilhas para filmes de Hollywood, e onde lançou discos pelo prestigioso selo Blue Note, especializado em jazz. Ele é objeto de uma série de tributos. No Brasil, músicos da cidade-natal de Moacir – Flores do Pajeú – tocam seu repertório no Festival Ouro. Em outras capitais do país acontecem shows centrados na obra de Moacir. Enquanto isso, nos Estados Unidos o violonista brasileiro Marcello Gonçalves e a clarinetista israelense Anat Cohen dão continuidade as apresentações de Outra Coisa, disco que lançaram uma década atrás para homenagear composições e arranjos de Moacir. “(Ele) era um arranjador que cuidava de todos os detalhes”, explica Mario Adnet, músico que produziu, junto com Zé Nogueira, o álbum Ouro Negro, de 2001, focado na obra de Moacir, para o qual Santos fez diversos arranjos. “Ele escrevia o baixo, uma coisa que faz toda diferença numa música, para você construir o arranjo depois. Era genial, de uma intuição extrema”.
– Por suas mais de 200 peças de cerâmica enfeitadas com desenhos de órgãos genitais, espalhadas por pontes e aquedutos desta região da Espanha, e por conta de sua identidade desconhecida, ele foi apelidado de “o Banksy da Catalunha”. Há quatro anos seu trabalho foi detectado e começou a ser catalogado pelo Amics de les Rajoles Eròtiques, coletivo determinado a proteger essas obras, cada uma delas acompanhada de ditos populares (em catalão ou em aranês, língua falada nos Pirineus). O artista utiliza técnicas da Idade Média, o que torna o trabalho ainda mais intrigante.
– Era para ter sido uma declaração de independência, mas o disco que George Michael chegou a preparar para desafiar sua gravadora, a Sony, com quem brigava em 1992, nunca foi concluído e permanece engavetado até hoje. Participaram da gravação alguns dos ídolos de Michael – incluindo Aretha Franklin, Sade e Janet Jackson –, que apareceriam creditados como parte de um grupo, Trojan Souls. No entanto, o disco nunca foi concluído, em parte por causa da morte do namorado de George, o brasileiro Anselmo Feleppa, que levou o artista a uma tristeza profunda. Parte desse material – e das filmagens das gravações – acabou vazando no YouTube. Agora, às vésperas do aniversário de morte de George Michael, um assessor informal e amigo do artista – Andros Georgiou –disponibilizou online 90 minutos daquele trabalho. Cobrando pelo acesso. Só esqueceu de combinar com os herdeiros de George. Tanto que imediatamente levou um processo pela frente.
– Empresário e colecionador de arte que fundou o Instituto Inhotim, encravado no interior de Minas Gerais, Bernardo Paez encomendou o plantio de 15 mil árvores e a construção de cerca de 40 galerias num terreno ao lado de seu empreendimento anterior. A ideia é erguer um novo espaço cultural, no qual já teria investido 1 bilhão de reais para a criação de um parque botânico, onde planeja mostrar sua coleção particular, com 3.000 obras dos grandes nomes da arte contemporânea do planeta.
– Michael Stipe, ex-R.E.M., deu mais um gostinho do que será seu primeiro álbum solo, ainda sem título e sem data de lançamento. Primeiro, tocou no hoje extinto The Late Show With Stephen Colbert “The Rest of Ever”. Agora, postou “Hum Desiderata”, uma colaboração com a artista americana Elizabeth Hatmaker. A letra é baseada num poema de Max Ehrmann, também dos Estados Unidos, e a faixa foi disponibilizada apenas no site Joyfully Waiting, que hospeda trabalhos multi-disciplinares que “se enriquecem, mutuamente, uns aos outros”.

PLAYLIST FAROL 166
Elephant Stone contra os fascistas. A sonoridade pub rock de Robyn Hitchcock. O amargor de Richard Thompson. Buddy Miller regrava The Temptations. O psicodelismo soul de Jim James. King Crimson, ao vivo. O folk-rock pop de Sam e Louise Sullivan. O country refinado de Bernie Taupin. O pop neo-retrô de Dent May. E os Beatles começam a polir seu francês
Elephant Stone – “Fascists Killed Yer Rock ‘N’ Roll”– O quarteto canadense de psych-rock adiciona um quê de punk neste single anti-conformismo, parte do álbum ASHA.
Robyn Hitchcock – “Yesterday’s Rain”– Nesta faixa do álbum The Confuser – seu 25º! –, o sempre mordaz artista britânico sublinha a sonoridade pub rock com a maior pinta de 1975.
Richard Thompson – “Cocaine Walking, Booze Talking”– O veterano cantor-compositor-guitarrista britânico começa a revelar um pouco de seu 20º álbum, Hippies, Thugs and Series – agendado para sair em outubro – a partir de um rock amargo de desamor e solidão.
Buddy Miller – “Don’t Look Back”– O mestre da Americana oferece sua versão do antigo sucesso dos Temptations que Peter Tosh regravou em 1978, sob forma de reggae, aqui substituindo no dueto Mick Jagger por Dan Penn, gigante do country soul, e com um arranjo de metais que acrescenta um toque Memphis à mistura. É a amostra inicial do primeiro álbum solo de Buddy em 15 anos, que sai em setembro.
Jim James – “Come Again”– Soul, gospel e psicodelismo se encontram nesta faixa do quinto álbum solo do artista americano, Wowed Out, com lançamento previsto para outubro.
King Crimson – “Larks’ Tongues In Aspic Part II”– Começou a vir à tona a série de gravações de residências que o grupo de Robert Fripp – em uma de suas encarnações mais poderosas – fez entre 2014 e 2021. O primeiro álbum traz a passagem do KC pelo Nokia Theatre, em Nova York.
Sam e Louise Sullivan – “Down on Love”– Volta e meia aparece uma combinação de vozes, arranjo e instrumentação que logo traz à lembrança um pouco das assinaturas típicas do Fleetwood Mac, safra 1975-1979. É o caso do folk-rock bem pop feito por esta dupla americana de irmãos.
Bernie Taupin – “The Sea Has No Mercy”– O letrista da fase de ouro de Elton John, com quem trabalhou por seis décadas, mostra aqui a faixa-título de seu primeiro álbum solo, também como intérprete, desde 1987. É música de gente grande, com muita vida nas costas, embalada pelo som country refinado de um time de craques de Nashville.
Dent May – “I Remember …”– Uma pitada de Ben Folds, um tantinho de Sparks, mais harmonias vocais e arranjos instrumentais de pinta vintage criam a fórmula indie pop neo-retrô deste compositor e musicista angeleno.
The Beatles – “Michelle”– Sai em outubro a versão super deluxe de Rubber Soul, álbum de 1965, trazendo remixagens de Giles Martin – também em formato Dolby Atmos – e recheado de preciosidades (inclusive, a demo de uma música inédita de John Lennon, “Little Girl”) e 20 versões alternativas de gravações conhecidas. Como esta primeira tentativa de se registrar a canção romântica onde Paul McCartney canta um pouco em francês.


